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XIII Conferência Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo

Declaração de Santa Cruz de la Sierra
14 e 15 de Novembro, 2003

"A inclusão social, motor do desenvolvimento da Comunidade Ibero-americana"


1. Os Chefes de Estado e de Governo dos 21 países ibero-americanos, reunidos na XIII Conferência Ibero-americana, na cidade de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, reiteramos o nosso propósito de continuar a fortalecer a Comunidade Ibero-Americana de Nações como fórum de diálogo, cooperação e concertação política, aprofundando os vínculos históricos e culturais que nos unem, e admitindo, ao mesmo tempo, as características próprias de cada uma das nossas múltiplas identidades, que permitem reconhecer-nos como uma unidade na diversidade.

2. Reconhecemos que a luta contra a pobreza é essencial à promoção e consolidação da democracia e constitui uma responsabilidade comum e compartilhada dos nossos Estados e da Comunidade Internacional. Declaramos que a erradicação da pobreza requer a aplicação de políticas integrais definidas e desenvolvidas pelo Estado com a participação de todos os sectores da sociedade, sendo o crescimento económico condição necessária, mas não suficiente, para promover uma melhor qualidade de vida, erradicar a pobreza e eliminar a exclusão social.

3. Reafirmamos a nossa vontade de reforçar as políticas e estratégias de combate à pobreza e as causas que a originam, de modo a permitir o estabelecimento de condições de maior inclusão social, e manifestamos a nossa convicção de que o maior exercício dos direitos de cidadania, a promoção da equidade e da justiça social e a plena participação na tomada de decisões sobre todos os assuntos da vida nacional serão factores determinantes para o desenvolvimento das nossas sociedades e para o fortalecimento da governabilidade e da estabilidade democrática.

4. Reafirmamos a nossa adesão aos propósitos e princípios de Direito Internacional consagrados na Carta das Nações Unidas, ao respeito da soberania e da igualdade jurídica dos Estados, ao princípio de não intervenção, à proibição da ameaça ou o uso da força nas relações internacionais, ao respeito da integridade territorial, à solução pacífica das controvérsias e à protecção e promoção de todos os direitos humanos para enfrentar os problemas da agenda internacional, num mundo globalizado. Manifestamo-nos a favor de um multilateralismo reforçado e de um papel eficaz e fortalecido das Nações Unidas, enquanto fórum de resolução das controvérsias internacionais, da salvaguarda da paz e da segurança internacionais e da promoção do desenvolvimento económico e social no mundo.

5. Reafirmamos que o Conselho de Segurança é o órgão com a responsabilidade primordial na manutenção da paz e segurança internacionais. Pronunciamo-nos a favor de uma ampla reforma do referido órgão, para assegurar o seu funcionamento democrático, eficaz e transparente. Do mesmo modo, apoiamos uma ampla reforma do Sistema das Nações Unidas, que contemple uma Assembleia Geral e uma Secretaria Geral fortalecidas nas suas funções.

6. Reiteramos o nosso enérgico repúdio à aplicação unilateral e extraterritorial de leis e medidas contrárias ao Direito Internacional, liberdade de mercado, de navegação e do comércio mundial e, por isso, exortamos o Governo dos Estados Unidos da América a p?r fim à aplicação da Lei Helms Burton.

7. Salientamos a importância do estabelecimento do Tribunal Penal Internacional como órgão dedicado a investigar, julgar e punir os crimes de genocídio, lesa -humanidade e guerra que afectam toda a Comunidade Internacional. Destacamos a eleição de ilustres juristas ibero-americanos para integrar como juizes e fiscal este Tribunal, e destacamos a importância da adesão e ratificação universal do Estatuto de Roma.

8. Reconhecemos que a democracia, a paz, a justiça, a equidade e o desenvolvimento sustentável são conceitos estreitamente relacionados e que se reforçam mutuamente. Nesse sentido, reiteramos o nosso compromisso com a consolidação da democracia e a manutenção do Estado de Direito, a protecção e promoção dos direitos humanos, o reconhecimento e respeito à própria identidade e ao exercício da diversidade cultural, assim como o direito de cada Estado a construir livremente sem ingerência externa, em paz, estabilidade e justiça, o seu sistema político e as suas instituições.

9. Salientamos, do mesmo modo, a importância de aplicar medidas destinadas a erradicar as condições socio-económicas de pobreza e exclusão, campos férteis para a desestabilização social e política.
10. Reafirmamos a nossa convicção de que constituem elementos essenciais da democracia, a independência e o equilíbrio de poderes, a adequada representação de maiorias e minorias, a liberdade de expressão, associação e reunião, o pleno acesso à informação, a realização de eleições livres, periódicas e transparentes e baseadas no sufrágio universal e secreto como expressão da soberania popular, a participação dos cidadãos, a justiça social e a igualdade.

11. Reiteramos o nosso empenho no fortalecimento institucional do Estado, no desenvolvimento de administrações públicas mais eficientes e transparentes, e na promoção dos instrumentos necessários para uma maior contribuição da sociedade civil para o processo decisório. Os Estados Ibero-americanos reforçarão as suas políticas de reforma da Administração Pública. Nesse contexto, expressamos o nosso especial empenho no desenvolvimento da profissionalização da Administração Pública, de acordo com os princípios e orientações adoptados na "Carta Ibero-americana da Função Pública", aprovada na V Conferência Ibero-americana de Ministros da Administração Pública e de Reforma do Estado, realizada em 26 e 27 de Junho de 2003, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia .

12. Reafirmamos a nossa vontade de combater a corrupção nos sectores público e privado, e a impunidade, que constituem algumas das maiores ameaças à governabilidade democrática. Reiteramos a importância da cooperação internacional incluindo, quando for o caso, os procedimentos de extradicção, na efectiva luta contra a corrupção, nos respeito do procedimento jurídico de cada país. O acesso à informação em poder do Estado promove a transparência e constitui um elemento essencial na luta contra a corrupção, e é condição indispensável para a participação dos cidadãos e o pleno gozo dos direitos humanos.

13. Expressamos o nosso firme compromisso de combater o terrorismo em todas as suas formas e manifestações, em absoluto cumprimento do direito internacional, das normas internacionais de protecção dos direitos humanos e do direito internacional humanitário. Estamos empenhados no reforço das nossas legislações nacionais e no fortalecimento da cooperação internacional para prevenir, reprimir, combater e punir os actos terroristas, independentemente do lugar onde ocorram e de quem os cometa, a não ajudar nem proporcionar refúgio aos autores, promotores ou participantes nos

referidos actos, de acordo com as pertinentes resoluções da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Apoiamos os trabalhos do Comité contra o Terrorismo do Conselho de Segurança no combate a este flagelo, que constitui uma séria ameaça à paz, à estabilidade democrática e ao desenvolvimento dos povos.

14. Reafirmamos o nosso permanente compromisso de reforçar a luta contra o problema mundial das drogas e delitos relacionados a partir de uma perspectiva integral e equilibrada, que estabeleça uma cooperação internacional fundada nos princípios da soberania dos Estados e da responsabilidade comum e compartilhada. Do mesmo modo, reiteramos o compromisso de prosseguir a cooperação no quadro da luta contra as diversas manifestações da criminalidade organizada transnacional.

15. Destacamos o impacto social positivo dos programas de desenvolvimento de culturas alternativas nas comunidades rurais. Reconhecemos a importância de programas eficazes e solidários de substituição de culturas ilícitas para favorecer a inclusão social dos grupos mais desfavorecidos do campo e dos trabalhadores rurais e indígenas, bem como exortamos a Comunidade Internacional a intensificar o seu apoio a tais programas e a promover o acesso dos produtos de exportação deles resultantes aos mercados internacionais.

16. A situação da economia mundial, a redução do financiamento para o desenvolvimento e a diminuição da cooperação multilateral afectam significativamente as nossa sociedades. Tal situação é agravada pela volatilidade dos fluxos financeiros e dos capitais, pela descida dos preços dos produtos básicos de exportação e pela imposição de barreiras comerciais e de taxas aduaneiras que dificultam as exportações, inclusivamente o efeito de práticas que, como os subsídios, distorcem o comércio. Sobre esta última questão manifestaram, ao mesmo tempo, o seu apreço pelo tratamento constructivo do tema nas negociações entre a América Latina e a União Europeia. Os problemas identificados têm um impacto muito negativo nas balanças de pagamento, já de si muito afectadas pelas grandes oscilações dos preços dos produtos básicos de exportação.

17. Reiteramos a importância do acesso a todos os mercados das exportacões dos países em desenvolvimento. Confiamos em que o cumprimento dos compromissos assumidos na Conferência de Monterrey pelos países doadores conduza a que a Ajuda Públca ao Desenvolvimento

acelere o crescimento atingido nos dois últimos anos e, desse modo, contribua para a assegurar uma adequada transferência de recursos financeiros para as regiões menos favorecidas do mundo, incluindo os países de rendimento médio com altos níveis de pobreza, e para programas e projectos que favoreçam a reduçao da pobreza.

18. Reiteramos o propósito de resolver, de maneira efectiva, justa e duradoura, o problema da dívida externa que afecta os países da região, tendo em consideração que os planos de ajustamento económico observem os princípios de equidade e justiça social, bem como a luta contra a pobreza, a fome e o desemprego. Com o objectivo de reduzir o peso da dívida através de negociações e iniciativas multilaterais, instamos o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento a intensificar os mecanismos de prevenção e resolução das crises financeiras que atingem algumas economias latino-americanas, avaliando, caso a caso, com os países afectados, fórmulas de aliviar o peso excessivo da dívida, preservando os princípios de responsabilidade mútua, equidade, combate à exclusão e, em especial, promovendo o reforço do princípio da governabilidade democrática.

19. As reivindicações sociais não atendidas das nossas populações constituem uma ameaça à governabilidade democrática. Nesse contexto, recomendamos continuar a procurar mecanismos financeiros inovadores destinados a garantir a referida governabilidade para a erradicação da pobreza.

20. Acolhemos com interesse a iniciativa de criação de um Fundo Humanitário Internacional, como mecanismo de financiamento, que permita o acesso a fundos especiais para reduzir os efeitos da pobreza nos países em desenvolvimento.
21. Reconhecemos o impacto positivo que o combate à pobreza tem tido nos nossos países, os progressos de ordem institucional que traduziram uma maior participação dos cidadãos no processo de tomada de decisões, no maior acesso da população à justiça e na luta contra a corrupção. No entanto, reconhecemos que as reformas económicas estruturais levadas a cabo com tanto sacrifício pelos nossos povos e Governos, em muitos casos, não produziram resultados suficientes no plano da diminuição das desigualdades e da exclusão social tendo mesmo, em algumas situações, significado um retrocesso ou um agravamento de tais fenómenos.

22. Estamos conscientes que a exclusão social é um problema de carácter estrutural com profundas raízes históricas, económicas e culturais, cuja superação exige uma profunda transformação das nossas sociedades atingidas pela desigualdade na distribuição da riqueza. Reconhecemos a urgente necessidade de implementar políticas públicas de diminuição da pobreza e de aumento da participação dos cidadãos de todos os sectores da população, excluídos da definição das políticas sociais, dos processos decisórios e do controle e fiscalização dos recursos financeiros consignados a tais políticas, por forma a que eles sejam os actores do seu próprio processo de desenvolvimento. Assim, poderemos assegurar o seu maior acesso à terra, às fontes de trabalho, a uma melhor qualidade de vida, à educação, à saúde, à habitação e a outros serviços básicos.

23. Embora estas constituam um paliativo obrigatório até à solução efectiva do problema, deve evitar-se que se cristalize uma sociedade dividida entre aqueles que tëm trabalho e aqueles que são assistidos. Por isso, propomo-nos promover todas as acções necessárias à diminuição das elevadas taxas de desemprego que afectam as nossas sociedades, gerando condições propícias ao desenvolvimento dos negócios e do investimento produtivo, mediante programas de formação e de geração de empregos que permitam a inserção dos desempregados nas actividades produtivas. Deste modo, reafirmamos a nossa convicção que os critérios de trabalho digno definidos pela OIT são o instrumento mais efectivo de promoção de condições de vida dos nossos povos e da sua participação nos resultados do progresso material e humano.

24. Ratificamos o compromisso de prosseguir políticas solidárias de desenvolvimento sustentável que permitam alcançar de forma planificada e equitativa as metas de erradicação da pobreza extrema, o acesso aos serviços básicos para toda a população, o melhoramento da qualidade de vida, a protecção do meio ambiente e o uso sustentável dos recursos naturais e a modificação dos padrões de produção e consumo não adequados. Exortamos, por isso, os países desenvolvidos, os organismos de cooperação e as instituições financeiras multilaterais a reforçar a ajuda a programas e projectos de desenvolvimento que prossigam tais políticas.

25. Admitimos, por outro lado, que a crise económica que afecta a maioria dos países ibero-americanos e a desigualdade na distribuição dos recursos e dos rendimentos produzem uma considerável deterioração e vulnerabilidade da

segurança alimentar de largos sectores das nossas populações, especialmente nas zonas rurais, com repercussões no nível de desenvolvimento humano e sustentável da região. Por isso, consideramos necessário criar instrumentos destinados a favorecer, entre outros objectivos, a concessão de créditos e o fortalecimento dos programas de formação que permitam aos mais afectados formular estratégias integradas e participativas de produção agrícola para o seu autoconsumo, com o objectivo de garantir um desenvolvimento rural integral.

26. Reiteramos que a agricultura e a vida rural são questões fundamentais para o desenvolvimento integral e para uma relação harmoniosa entre o rural e o urbano, assim como para a governabilidade democrática das nossas sociedades. Comprometemo-nos a aumentar as oportunidades de melhoria das condições de vida e das capacidades humanas, sociais, e institucionais no mundo rural, promovendo investimentos e criando mecanismos favoráveis à melhoria sustentável da agricultura, ao fomento da agro-indústria e, ao mesmo tempo, que contribuam para o desenvolvimento social, prosperidade rural e segurança alimentar.

27. Neste sentido, propomos prosseguir a adopção de medidas de emergência para assistência às famílias e indivíduos, cujos rendimentos per capita sejam inferiores ao limiar de pobreza garantindo-lhes segurança alimentar. Neste sentido, registamos com interesse a criação de um Fundo Mundial Contra a Fome. Este Fundo insere-se no contexto da cooperação Sul-Sul, dispondo já de donativos de empresas privadas e contribuições de países patrocinadores, e poderia beneficiar de um enquadramento Norte-Sul através do apoio político e de contribuições financeiras de países desenvolvidos.

28. Reconhecemos o papel fundamental da micro-empresa no desenvolvimento dos nossos países, uma vez que gera riqueza e emprego, facilita a descentralização económica e permite a integração de amplos sectores da população nas economias nacionais. Reconhecemos, também, o papel das cooperativas e associações comunitárias no desenvolvimento de uma economia solidária com vocação social, na medida em que contribuem para criar emprego produtivo, promover a integração e a plena participação de todos os sectores da população no processo produtivo nacional, nomeadamente das mulheres, dos jovens, dos idosos e dos deficientes. Por isso, comprometemo-nos a fomentar a concessão de micro-créditos favorecendo o seu desenvolvimento, no respeito pela igualdade de género.

29. Assumimos o compromisso de prosseguir na formulação e execução de políticas para o desenvolvimento de uma infra-estrutura de integração física regional, dada a importância que esta tem na diminuição dos índices de pobreza e exclusão social, e tendo em vista aumentar o grau de participação e articulação das populações locais. Consideramos necessário, por isso, que esta política atribua prioridade às necessidades e problemas específicos dos países em desenvolvimento que não têm litoral marítimo, assim como às zonas interiores dos países de trânsito. Valorizamos a importância estratégica regional que representa para os nossos países o transporte aéreo e assinalamos a entrada em funcionamento do Comité Regional de Competitividade no Transporte Aéreo.

30. Reconhecemos a necessidade de criar um programa regional de habitação social e de implantação de comunidades destinado a beneficiar os sectores sociais mais pobres, com o objectivo de contribuir substancialmente para os esforços que os governos têm desenvolvido, através de programas nacionais de combate à pobreza, para o crescimento económico dos países por meio de relações intersectoriais da actividade de construção, para gerar fontes de renda e emprego para as famílias pobres, para propiciar maior governabilidade dos países e contribuir ainda para a superação das condições críticas do meio ambiente visando, com tais medidas, promover o desenvolvimento sustentável do habitat regional.

31. Estamos conscientes da importância da educação como factor de inclusão social para a erradicação da pobreza, da promoção do desenvolvimento sustentável e da construção de sociedades prósperas e democráticas. Reiteramos o nosso compromisso de atingir as metas educativas estabelecidas na Declaração de Bariloche, em 1995, e de promover um movimento a favor da educação. Neste sentido, concordamos que o dia 2 de Outubro seja adoptado, nos nossos países, como o Dia Ibero-americano da Educação.

32. Assumimos o compromisso de promover estudos, diálogos e negociações conjuntas junto de organismos internacionais, com o objectivo de explorar a viabilidade e execução de estratégias, iniciativas e instrumentos de conversão da dívida externa em investimento, educação, ciência e tecnologia, com o duplo objectivo de reduzir o nível de endividamento dos nossos países e, ao mesmo tempo, aumentar o investimento efectivo nos citados sectores críticos para o desenvolvimento.

33. Afirmamos que a cultura contribui para o desenvolvimento humano sustentável enquanto elemento de coesão social, baseado numa perspectiva integral da pessoa, tendo em conta a pluralidade das suas necessidades e aspirações. Reconhecemos a riqueza da nossa diversidade cultural como um valor fundamental da Comunidade Ibero-americana e destacamos a conveniência de fomentar, plena e livremente, políticas públicas integrais e transversais que estimulem a produção de bens e serviços culturais como fontes de valor acrescentado. Este último aspecto, também deverá considerar-se nas negociações comerciais internacionais, presentes e futuras.

34. A defesa dos direitos e da identidade própria das culturas originárias da América de ascendência africana e de outras procedências, como componente fundamental das nossas sociedades, deve ser uma prioridade permanente para os nossos Governos, porque contribui de forma determinante para o desenvolvimento e identidade de toda a comunidade ibero-americana. A sua plena integração na vida nacional baseada na vivência das suas culturas e no exercício dos seus direitos de cidadania é um objectivo comum, que só poderá ser alcançado através do desenvolvimento da interacção cultural.

35. Na convicção do valor da cultura enquanto contributo para a equidade social, proclamamos o ano de 2005 como o Ano Ibero-americano da Leitura e propomo-nos congregar esforços dos sectores público e privado para assegurar o êxito do Plano Ibero-americano de Leitura, aprovado pela VII Conferência Ibero-americana de Cultura.

36. A saúde constitui um direito humano fundamental para o desenvolvimento sustentável. A revalorização dos cuidados primários de saúde, o objectivo "saúde para todos", o cumprimento dos Objectivos e Metas de Desenvolvimento do Milénio, assim como o reforço das condições locais de gestão de saúde devem converter-se em eixos estratégicos fundamentais para incrementar a protecção social e assegurar o acesso universal à saúde. Neste sentido, é fundamental aumentar o investimento público neste sector e aproveitar a cooperação entre países, no quadro das iniciativas regionais e sub regionais de integração, bem como mobilizar o apoio da comunidade e da cooperação internacionais.

37. Declaramos a necessidade dos nossos países de ampliarem o acesso equitativo, universal e permanente aos sistemas de saúde e de segurança social, e de orientar a nossa acção para os sectores excluídos, com o

propósito de se reduzir os índices de mortalidade infantil e materna, de prevenir a propagação de doenças infecto-contagiosas, como a Sida/AIDS, e de assegurar os cuidados básicos de saúde da população e o acesso aos medicamentos essenciais, respeitando e promovendo os costumes e valores inerentes a cada cultura.

38. Por outro lado, reiteramos o nosso repúdio a todas as formas de discriminação racial, social, religiosa, de género ou de preferência sexual e relacionadas com a deficiência, ou outras formas de discriminação. Consideramos relevante evidenciar o papel fundamental dos sistemas internacionais e regionais de promoção e protecção de direitos humanos e as liberdades fundamentais, assim como a cooperação de todos os países neste contexto.

39. Com o objectivo de promover um maior entendimento e tomada de consciência dos temas relativos aos deficientes, e para mobilizar o apoio em favor da sua dignidade, direitos, bem estar e sua participação plena em igualdade de oportunidades, assim como de fortalecer as instituições que os beneficiam, proclamamos o ano de 2004 como Ano Ibero-americano das Pessoas Deficientes.

40. Reconhecemos o valor das contribuições económicas e culturais dos migrantes com relação às sociedades de destino e às suas comunidades de origem. Reiteramos o compromisso de estabelecer uma maior coordenação e cooperação sobre o tema das migrações e destacamos a importância da cooperação entre os países de origem, de trânsito e de destino, para assegurar a plena protecção dos direitos humanos e laborais dos migrantes e das suas famílias, assim como para combater o tráfico ilícito de pessoas e exploração de mulheres e crianças. Promoveremos, com tal objectivo, um diálogo integral entre os países de origem, de trânsito e de destino dos migrantes, que permita a gestão adequada dos fluxos migratórios e a sua integração social. Reconhecemos, também, a necessidade de fomentar investimentos produtivos que criem emprego dignamente remunerado de sorte a desencorajar o actual fluxo migratório e o tráfico ilegal de pessoas. Por isso, estimularemos mecanismos de cooperação que simplifiquem, reduzam o custo e facilitem o envio de remessas dos migrantes para os seus países de origem.

41. Outrossim, reiteramos o compromisso de combater a exploração de pessoas, que atinge em particular as mulheres e as crianças, adoptando medidas de prevenção e protecção às vitimas, em consonância com os princípios reconhecidos internacionalmente de não discriminação e de respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais garantindo, além disso, que o regresso seja, na medida do possível, voluntário e tenha em devida conta a segurança e a dignidade da pessoa humana, em conformidade com o direito internacional, designadamente, a Convenção sobre o Estatuto de Refugiados de 1951 e o Protocolo de 1967, bem como o principio da Não Devolução (non-refoulement) neles consagrado.

42. Reconhecemos que a mulher desempenha papel fundamental nos processos de transformação social e é factor determinante para o desenvolvimento económico dos nossos povos; constatamos que ainda persistem, contra ela, nas nossas sociedades, diversas formas de discriminação, exclusão e violência. Comprometemo-nos a empreender, apoiar e promover nas políticas nacionais os planos de igualdade de género e de oportunidades e os de prevenção da violência contra a mulher, que garantam o desenvolvimento das suas potencialidades e da sua participação igualitária em todas as actividades públicas e privadas e nos processos decisórios, em todos os âmbitos e níveis.

43. Na Ibero-américa as crianças e os adolescentes constituem a maior parte da população. Muitos deles nascem em condições de pobreza e exclusão, o que diminui as suas capacidades pessoais e compromete o futuro das nossas sociedades. Reconhecemos a dívida que os nossos Estados têm com os jovens e comprometemo-nos a procurar soluções que assegurem a sua plena inserção social e laboral e a sua participação na tomada de decisões em todos os assuntos que lhes digam respeito. Reiteramos, por isso, o nosso decidido apoio às actividades desenvolvidas na concretização destes objectivos pela Organização Ibero-americana de Juventude. Comprometemo-nos a continuar a desenvolver políticas públicas sustentáveis que permitam alcançar os objectivos e metas acordadas pelos países ibero-americanos, especialmente a favor das crianças indígenas e afro-descendentes, com critérios de equidade e inclusão social, implementando um sistema de assistência técnica horizontal para a região e procurando que a cooperação internacional aumente o seu apoio, respeitando o compromisso internacional de destinar 0,7% PIB dos países desenvolvidos para a Ajuda Pública ao Desenvolvimento.

44. Concordamos que a revolução informática e tecnológica abre maiores possibilidades de participação social, económica e política, já que as novas tecnologias de informação constituem ferramentas indispensáveis ao progresso social e económico dos países. É importante evitar que a sociedade da informação gere novas formas de exclusão. A redução do fosso digital, o desenvolvimento da infra-estrutura de redes tecnológicas e o acesso universal devem ser objectivos fundamentais das políticas de construção da sociedade de informação. Consideramos que, juntamente com a maximização dos benefícios resultantes de tais inovações tecnológicas, é necessário também evitar novas formas de info-exclusão e discriminação tecnológica, desenvolvendo projectos de cooperação em matéria de tecnologias de informação. Propomo-nos a trabalhar em favor desses objectivos e na promoção da diversidade cultural e linguística, no âmbito da próxima Conferência Mundial da Sociedade de Informação.

45. Por isso, estamos conscientes de que a protecção de dados pessoais é um direito fundamental e destacamos a importância das medidas regulatórias ibero-americanas de protecção da privacidade dos cidadãos, contidas na Declaração de Antígua, que criou a Rede Ibero-Americana de Protecção de Dados, aberta a todos os países da nossa comunidade.

Cooperação Ibero-americana

1. Reafirmamos que a cooperação, tal como estipula o Convénio de Bariloche, deve ser um dos eixos centrais, no qual se sustenta o processo permanente de construção da Comunidade Ibero-americana como espaço de convergência e de inclusão política, económica, social e cultural de todos os sectores das nossas sociedades.

2. Destacamos os progressos na ratificação do Protocolo de Havana, que cria a Secretaria de Cooperação Ibero-americana.

3. Valorizamos a importante contribuição dos diferentes programas de cooperação Ibero-americana, que figuram em anexo, para o desenvolvimento dos países e da Comunidade Ibero-americana e comprometemo-nos a difundir os seus alcances e resultados.

4. Ratificamos o mandato conferido à SECIB tendo em vista a procura de fontes adicionais de financiamento para os programas e projectos de cooperação ibero-americana, tanto no sector privado como nos organismos internacionais.

5. Manifestamos a nossa satisfação com os progressos alcançados com a iniciativa CIBERAMÉRICA para a conformação de uma comunidade virtual Ibero-americana, pelo que aprovamos a sua conversão em Programa - Cimeira, solicitando à SECIB o seguimento e o desenvolvimento dos seus aspectos jurídicos e técnicos, assim como a inclusão neste portal, entre outros conteúdos, de uma base de dados de melhores práticas de cooperação técnica, identificada de comum acordo.

6. Reconhecendo que a leitura é um verdadeiro instrumento de inclusão social e um factor básico para o desenvolvimento social, cultural e económico dos nossos países, aprovamos com satisfação a conversão em Programa- Cimeira do Plano Ibero-americano de Leitura - ILIMITA.

7. Destacamos, em especial, os resultados alcançados pelo programa IBERMEDIA durante o presente ano, e reiteramos o nosso compromisso com a continuidade do mesmo, particularmente, com a criação de um quadro jurídico adequado, que permita o desenvolvimento de todas as potencialidades de crescimento do referido programa.

8. Considerando o que foi assinalado na Declaração de Lima, saudamos com satisfação a integração como Projectos adstritos à Conferência Ibero- americana, do Programa de Formação de Altos Dirigentes e Funcionários Ibero-americanos em Governo e Gestão Local da União Ibero-americana de Municípios e do Programa Ibero-américa Empreende, destacando o início desta nova modalidade de cooperação Ibero-americana.

9. Reconhecemos o trabalho realizado pelo Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e das Caraíbas (Fundo Indígena), em conformidade com os mandatos de Lima e Bávaro, e saudamos a apresentação do Relatório Executivo sobre os progressos do seu Plano de Reestruturação. Reafirmamos a nossa vontade de continuar a apoiar o Fundo Indígena através das distintas modalidades de contribuição, e convidamos a Cooperação Internacional a manter o seu apoio.

Acolhemos com satisfação o convite feito pelo Governo da Costa Rica e concordamos em realizar a XIV Conferência Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo na República da Costa Rica, em 2004.

Aceitamos com prazer o convite do Presidente do Governo espanhol, Excelentíssimo Senhor José María Aznar López, para realizar nesse país, no ano 2005, a XV Cimeira Iberoamericana de Chefes de Estado e de Governo .

Expressamos o nosso agradecimento ao Presidente Carlos Mesa Gisbert, e ao povo da Bolívia pela hospitalidade e atenções recebidas durante a XIII Conferência Ibero-americana de Santa Cruz de la Sierra.

Os Chefes de Estado e de Governo dos países iberoamericanos subscrevem a presente Declaração, em dois textos originais na língua espanhola e na língua portuguesa, ambas igualmente válidas, na cidade de Santa Cruz de la Sierra, aos quinze dias de Novembro do ano 2003.

D. Juan Carlos I de Borbón
REY DE ESPAÑA

D. Carlos Mesa Gisbert
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE BOLIVIA

D. Néstor Carlos Kirchner
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA ARGENTINA

D. Luiz Inacio Lula Da Silva
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA FEDERATIVA DEL BRASIL

D. Ricardo Lagos Escobar
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE CHILE

D. Alvaro Uribe Vélez
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE COLOMBIA

D. Abel Pacheco de la Espriella
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE COSTA RICA

D. Carlos Lage Dávila
VICEPRESIDENTE DEL CONSEJO DE ESTADO
DE LA REPUBLICA DE CUBA

D. Lucio Gutiérrez Borbúa
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DEL ECUADOR

D. Francisco Flores Pérez
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE EL SALVADOR

D. José Maria Aznar López
PRESIDENTE DEL GOBIERNO ESPAÑOL

D. Alfonso Portillo Cabrera
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE GUATEMALA

D. Ricardo Maduro Joest
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE HONDURAS

D. Vicente Fox Quesada
PRESIDENTE DE LOS ESTADOS UNIDOS MEXICANOS

D. Enrique Bolaños Géyer
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE NICARAGUA

Da. Mireya Moscoso Rodríguez
PRESIDENTA DE LA REPUBLICA DE PANAMA

D. Nicanor Duarte Frutos
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DEL PARAGUAY

D. Alejandro Toledo Manrique
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DEL PERU

D. Jorge Fernando Branco de Sampaio
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA PORTUGUESA

D. Manuel Durao Barrosso
PRIMER MINISTRO DE LA REPUBLICA PORTUGUESA

D. Rafael Hipólito Mejía Domínguez
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DOMINICANA

D. Jorge Batlle Ibáñez
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA ORIENTAL DEL URUGUAY

D. Hugo Rafael Chávez Frías
PRESIDENTE DE LA REPUBLICA BOLIVARIANA DE VENEZUELA