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I Conferência Ibero-americana de Ministros da Educação

Conclusões da Reunião sobre Educação, Trabalho E Emprego
(Havana, Cuba, 29 de maio a 2 de junho de 1989)


1. Como bem assinalam os ministros da educação da área* nossos países enfrentam "uma crise estrutural, que afeta profundamente os agentes econômicos, o Estado, o modo de produção, a inserção externa, a situação social e que, além disso, se desenvolve de modo caótico".

2. Ante esta situação, resulta compreensível que as urgências cotidianas outorguem um caráter excludente aos problemas da dívida externa e à magnitude e profundidade das crises econômicas, à aplicação de medidas drásticas de contenção de gasto e a inversão pública, com seu dramático custo social que ampara a marginalização e os atrasos existentes.

3. Do mesmo modo é entendível que se dê prioridade à concepção e desenho de políticas e ações tendentes a paliar as mais severas repercussões que, na conjuntura, afetam a produção, o emprego e os níveis de renda e consumo da população.

4. No entanto existem razões, estreitamente vinculadas, que tornam indispensável complementar os esforços que atualmente se realizam com um tratamento mais sistemático das condições estruturais das crises.

Em primeiro lugar, em razão de que a natureza dos problemas que afetam a conjuntura, os instrumentos de política suscetíveis de serem aplicados e a possibilidade de alcançar sua solução, estão fortemente determinados pelas condições e características das estruturas econômica, social e política.

Em segundo termo, porque o marco internacional e interno de tal estrutura experimenta profundas transformações que vêm sobrepor-se e interagem com os fatores da crise que se pretende superar.

Finalmente, porque as mudanças que possam modificar substancialmente o conjunto da estrutura e funcionamento econômico do mundo estão sucedendo neste preciso momento.

5. Ainda que possa parecer que, por sua amplitude e complexidade, o conteúdo temático excede os próprios alcances de um enfoque ocupacional e educacional, na verdade este responde ao conceito de que o emprego e a educação constituem fatores nos quais se articulam, definem e refletem as dimensões econômica e social do processo de desenvolvimento em seus níveis globais, setoriais, regionais e ainda individuais.

A revolução tecnológica

6. Nesse sentido, é preciso ratificar que a educação não constitui um fenômeno isolado, mas, sim, que se inscreve, determina e atua em um marco social, econômico, político, produtivo, e tecnológico concreto.

7. No caso da Ibero-América, esse marco tem como característica destacável sua heterogeneidade, tanto em seu conjunto, no interior de cada país que o integra, em sua configuração produtiva, setorial, cultural e social e em sua distribuição territorial e regional.

8. A educação, frente a esse marco diverso, deve responder com capacidade de adaptação a cada realidade, mas em um conceito integrador, com um propósito transformador e de progresso social, eqüitativo e solidário.

9. Essa capacidade de adaptação flexível tem que responder também aos requerimentos das transformações que tal marco experimenta no tempo e que hoje se expressa com força imperativa na revolução científico-tecnológica que está se desenvolvendo no mundo.

10. Em algumas circunstâncias da história humana, a modificação substantiva dos conteúdos científicos e tecnológicos no qual se baseia a organização da produção, constitui uma verdadeira revolução e toma parte, promove e condiciona profundas repercussões nas dimensões econômicas, sociais, culturais e políticas da totalidade dos setores e países, e das relações entre eles.

11. As quatro linhas fundamentais da revolução tecnológica que, hoje, vivemos são:

  • Robótica: ou seja, a implantação nos processos produtivos de sistemas de automatização total, com robôs reprogramáveis em função das exigências de produção de diversos setores;
  • Microeletrônica: com uma enorme capacidade de transformar as características do uso e de transmissão da informação e as características e condições de numerosos setores de administração e serviços;
  • Engenharia genética: a partir da qual resulta possível modificar o comportamento dos seres vivos e a forma e natureza de sua participação nos processos de transformação produtiva;
  • Novos materiais: que podem chegar a transformar substancialmente a natureza das demandas de insumos naturais e sua aplicação a diversos bens manufaturados.

12. A experiência histórica permite antecipar que terão de ser produzidas mudanças significativas na forma de organização dos processos de trabalho, na natureza da divisão internacional do trabalho, nas hegemonias por países e regiões, nas condições setoriais de produção, nas condições de vida e de trabalho da população dos diversos países e no papel e funcionalidade da Ibero-América.

13. Ante as novas circunstâncias econômicas, sociais e políticas, experimentar-se-ão mudanças nas exigências de qualificação, na distribuição espacial da população e na natureza dos instrumentos de política econômica com que contam os países para promover, por um lado, as potencialidades que, indiscutivelmente, encerra toda modificação como a que haverá de experimentar nos próximos anos e também para diminuir o custo social e o perigo derivado das perseguições que essa nova realidade pode apresentar para as condições gerais de vida de nossos povos.

14. No tratamento desse tema, deverá entender-se que o conceito de sistema educacional envolve todos os níveis de formação, qualificação, reciclagem e reconversão dos recursos humanos com que contam os países.

15. Esta concepção ampla permite analisar tanto os problemas específicos que haverá de enfrentar o sistema de educação superior, os sistemas de ensino médio e técnico, os níveis de instrução fundamental, como, em particular, os mecanismos formais e informais de qualificação da força de trabalho, já que todos em conjunto haverão de ser submetidos a uma forte pressão para sua adaptação às exigências que apresentam os novos processos tecnológicos e produtivos e a superação das situações de atraso ou marginalização que persistem.

16. Não se tratará somente de estabelecer com precisão as especialidades que contarão, no futuro, com maiores possibilidades de inserção na estrutura produtiva, mas também que, provavelmente, resulte mister analisar a própria filosofia dos processos de educação e formação. Em tal sentido, é conveniente advertir que o sistema vigente na atualidade constitui essencialmente um mecanismo vestibular de formação e qualificação prévio à entrada no mercado de trabalho; não tem estabelecido mecanismos orgânicos de reciclagem, reconversão ou atualização, mas iniciativas isoladas de algumas instituições e unidades produtivas.

17. A mudança tecnológica que inicialmente afeta os processos de produção e os produtos, logo excede tais esferas para expandir-se em todos os âmbitos da vida social, cultural, etc. A educação deveria incorporar-se no fato tecnológico a partir desta perspectiva, pois deixou de ser um fenômeno vinculado exclusivamente à atividade produtiva do homem.

18. Há uma crescente interdependência entre os âmbitos produtivo e educacional quanto ao aumento das exigências cognoscitivas do processo produtivo e das necessidades individuais de recorrer, cada vez mais freqüentemente, a processos formadores.

19. Assistimos, portanto, a uma recuperação da relação educação-trabalho, uma de cujas manifestações é a revalorização da formação profissional.

20. As novas tecnologias devem ser incorporadas como instrumentos no processo educacional. Este fato introduz mudanças metodológicas importantes, que deveriam ser avaliadas para possibilitar uma transformação qualitativa no sistema.

21. Restrições de financiamento e necessidades metodológicas aconselham vincular os processos formadores às unidades de produção naqueles setores de alto nível tecnológico e transformação acelerada.

22. A rápida mudança em grande parte dos setores produtivos, questiona a efetividade de processos formativos altamente especializados, tornando necessário contemplar a possibilidade de orientar-se para uma educação-formação de base ampla, que potencie a capacidade de adaptar-se à mudança, complementada em atuações que buscam a especialização e a atualização e a reciclagem ao longo da vida laboral das pessoas.

23. Um problema adicional, presente já na realidade de nossos países, é o de desenhar instrumentos educacionais de acordo com as necessidades de um crescente setor informal urbano e rural e apoiar a nova experiência decorrente da expansão do setor social da economia como um instrumento de integração ao desenvolvimento econômico nacional e regional.

24. Do mesmo modo, existem grupos heterogêneos em razão de sua inserção na atividade produtiva. Como, por exemplo, os grupos étnicos minoritários, refugiados e migrantes; produtores rurais e urbanos não-formais. Alguns setores são emergentes no cenário político e se convertem, portanto, em novos demandantes dos serviços educacionais. Isto obrigará a uma revisão das prioridades de objetivos e recursos do sistema em articulação com outros agentes econômicos e sociais que intervêm na configuração da realidade destes grupos.

25. A educação é um fenômeno social total, que intervem em todas as etapas e dimensões da vida humana, por meio de uma grande quantidade de agentes, de diferentes formas e com diferentes implicações. A coordenação e articulação dessas instâncias são necessárias para manter a coerência e consistência das diversas contribuições. Se os Ministérios da Educação cumprem o papel protagonista na atual organização administrativa de nossos governos, outros setores participam diretamente na conformação do processo e pode, assim, assumir um papel determinante e proeminente nas diversas etapas do mesmo, exigindo a criação de esferas ou estruturas coordenadoras de nível superior que garantam o sentido geral e a coerência geral do sistema.

26. É preciso potenciar a capacidade transformadora da educação para apoiar os esforços de mudança dos padrões de desenvolvimento produtivo, o que exigirá a conjunção dos esforços de todos os âmbitos políticos e administrativos e agentes sociais.

27. A crise socioeconômica e especialmente as conseqüências da dívida tornam cada vez mais evidentes e aprofundam o desamparo educacional e produtivo das grandes maiorias. Por outro lado, as restrições orçamentárias que, como conseqüência de tais crises, são impostas aos ministérios, tendem a adiar soluções centralizadas.

28.No entanto não é possível pensar em nenhuma solução viável enquanto estas maiorias não se convertam em atores sociais na participação nos processos produtivos e distributivos.

29. As políticas educacionais devem, conseqüentemente, incorporar em seu planejamento e execução a participação dos setores "marginais", tanto as grandes maiorias, como os grupos específicos mais necessitados (mulheres, jovens, etc.) para assegurar-se que seus interesses sociais, econômicos e políticos estejam eqüitativamente representados.

30. Da perspectiva da Educação, Trabalho e Emprego e sua globalização nas estratégias de ação comum, é necessário que os governos dos países-membros destes Estados, de maneira vinculadora, solidária e conjunta, adotem o compromisso nos seguintes sentidos:

a) O processo de vinculação entre emprego, trabalho e educação há de reunir requisitos de uma aprendizagem planejada, sistemática, intencional, socialmente válida, com um propósito definido e contínuo.

b) Todos os países ibero-americanos e como decisão de seus governos nacionais (portanto, não só de seus Ministérios da Educação) hão de adotar a determinação de implementar um sistema de formação para o trabalho e o emprego como políticas nacionais prioritárias e com um caráter formal e informal que possibilite o acesso a esta oferta educacional a toda população em idade escolar e adulta.

As reduções orçamentárias que vêm sendo produzidas em educação na maioria dos países ibero-americanos, não deveriam repercutir neste tema dado a influência direta que incide sobre a produção, economia e desenvolvimento da sociedade.

Será necessário colhetar todas as experiências realizadas tanto de tipo modular, de alternância, duais, etc., analisar sua virtualidade na Ibero-América e desenhar e aplicar o modelo original mais apropriado a estas regiões, segundo suas características econômicas sociais e culturais.
A educação para o trabalho e o emprego é assunto que ultrapassa os âmbitos competentes de um Ministério ou departamento e inclusive, da administração pública em geral. Qualquer política que atue nesse sentido se verá chegar a minimizar sua eficácia, reduzir sua implantação social, entrar em conflito com o sistema produtivo e, seguramente, levará ao fracasso.

Por isso, é imprescindível que estas políticas educacionais sejam desenhadas, planejadas e executadas pelos diferentes ministérios mais diretamente envolvidos (Educação, Trabalho, Agricultura e Indústria, fundamentalmente) sempre com a participação das diferentes organizações e interlocutores sociais mais representativos em cada caso (sindicatos, empresários, associações de camponeses, ONG, etc.).

Existem três princípios básicos que hão de ser considerados como imprescindíveis em uma política educacional relacionada com o trabalho e o emprego.

  • A participação em todos os estamentos da administração e agentes sociais que, além de ajudar para a estruturação e à consolidação de uma sociedade democrática, consegue aperfeiçoar as ações por enriquecimento de perspectivas, assim como, ao implicar múltiplos atores sociais, co-responsabilizar em uma execução mais efetiva.
  • A descentralização, tanto organizativa como territorial que consegue aproximar a decisão e a análise à localização física dos problemas, conseguindo maior transparência nas atuações, agilidade na gestão e que os cidadãos sintam como próprias as instituições.
  • A desconcentração como processo simultâneo com o anterior, já que,se não se produz a desconcentração, a descentralização, fica vazia de conteúdo e capacidade de execução. A desconcentração deve supor a cessão às ações de capacidade de autoridade e decisão necessária a realização de seus programas e resolução de seus problemas.

Todo o anterior também deve refletir-se na abertura das instituições educacionais de categoria superior para a participação dos agentes sociais, seja em suas formas de Conselhos Escolares de Estado, Conselhos Nacionais, Órgãos Superiores, ou qualquer forma que se adote segundo os países.

Em todo o caso, o seguimento e avaliação destas ações há de contar com a presença das entidades enunciadas no parágrafo anterior, não obstante outros protagonistas que possam considerar-se oportunos em determinadas circunstâncias (Universidades, agências externas, etc.).

A fim de evitar que estas decisões, apesar de ser vinculadoras e, portanto com responsabilidade de execução, possam ficar em situação de vazio ou de escassa operacionalidade, hão de ser adotadas, também, as seguintes medidas:

  • Criação de um Centro de Informação e Documentação sobre Educação, Trabalho e Emprego que compile toda a informação e documentação, assim como experiências nesta temática e sirva de apoio ao desenho de estratégias de atuação.
  • Analisar a situação e a política de atuação no objetivo que nos ocupa. Em todos os estados-membros há de acordar-se, partindo de uma perspectiva de harmonização e de ação conjunta, o início de atuações concretas que sejam homologáveis, recíprocas e comunitárias.

31. Para desenvolver esta orientação, é necessário identificar campos de trabalho comuns, não suscetíveis de nenhum tipo de contenção que responda a problemáticas e a soluções identificáveis e que as respostas adotadas sejam comuns, transferíveis e mutuamente reconhecidas.

32. Aspectos como as correspondências e a homologação mútua de certificações, configuração de determinados currículos, cursos de especialização, requisitos de instalações escolares e tecnologia educacional, poderiam ser, entre muitos outros, elementos que poderiam iniciar esta linha de trabalho para a harmonização e a configuração da unidade ibero-americana em matéria de educação, trabalho e emprego.

Propostas de cooperação multilateral

1. Colaborar nas publicações que atualmente se editam no âmbito ibero-americano, ampliando as contribuições e informações com respeito a experiências, investigações, publicações, etc.

2. Dar especial ênfase à informação sobre Educação, Trabalho e Emprego nos Boletins Ibero-americanos de Educação e nas publicações periódicas da OEI. Também se sugeriu conectar-se a redes e mecanismos já existentes sobre o tema, como a Rede REDUD, a Rede de investigadores apoiada por IDRC, o Boletim de CINTERFOR e outras.

3. Desenvolver um programa de reuniões regionais e sub-regionais com temas específicos. Para cada uma destas regiões encarregar-se-iam os documentos de base a especialistas, designar-se-iam outros como comentaristas, em síntese, tentar-se-ia garantir que os encontros fossem frutíferos em termos de produção de conhecimentos e de propostas concretas. Entre os primeiros temas seria útil propor o das prioridades no campo de educação, trabalho e emprego, assim como o das modalidades de vinculação para ações conjuntas entre os organismos educacionais, de formação profissional e não-educacionais.

4. Orientar e apoiar as instituições de investigação na realização de estudos sobre o balanço das experiências de cooperação na área educacional; desenvolvimento de bibliografias nacionais com um projeto temático pré-estabelecido; a imagem do trabalho nas instituições educacionais; organizações sindicais e educacionais, etc.

5. Convocar reuniões que recuperem experiências não convencionais de educação e trabalho, onde se junte aos planejadores de políticas, funcionários governamentais e responsáveis por organizações não-governamentais e usuários.

6. Apoiar o desenvolvimento de cursos de extensão universitária que vinculem a educação com a ocupação e a produção.

7. Constituição de uma base de dados de informação técnica sobre Educação, trabalho e emprego.

8. Desenvolvimento de ações de assistência técnica e promoção de estágios entre entidades responsáveis por atividades de formação profissional e educação técnica.